domingo, 23 de agosto de 2009

Verme urbano e Inocência dualista

domingo, 23 de agosto de 2009 9
“I wish I was special
So very special
But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here
I don't care if it hurts
I wanna have control
(...)”

É como se eu tivesse fechado os olhos para o mundo. E nas profundezas da alma encontrado uma fenda enorme saturada de vísceras, de liquido denso coagulado e de chorume. Estava camuflada, mas continuava ali, imóvel e descansada entre as sombras do meu coração, uma enorme poça a céu aberto, ignorada pelos sofredores e amantes anônimos deste poço chamando mundo. Mas antes, ninguém se importou se fedia, era só tapar o nariz e seguir em frente fingindo que não estivesse ali. Eu nunca estive ali.
Se eu ao menos tentasse olhar mais para dentro... Antes veria que tudo estava ficando turvo, que o coração bombeava veneno tristemente para as veias, e que as veias se dilatavam sem pena do meu corpo. Eu sentia tudo, cerrando os dentes. A carne sofreu. Começaram a trabalhar todos com vida própria, nada ligou para nada. Tornei-me uma grande fábrica sem comprador, uma construção tão rapidamente ruinosa, com o proletário desgastado, doente e apático. Estão todos trabalhando, tossindo dentro das minhas entranhas. Posso sentir o peso dessa prole antitética todos os dias, não há só ignorantes morando aqui. Corrupção!
O gabinete principal explodiu. Ouviram os fogos de lá, gente que nem sabia do mundo aqui dentro.
Não me movo quando estoura tudo, frequentemente, os cabos inundam meus braços, e se balanço muito, a lama me escorre pelos ouvidos. No todo, está tudo murchando e ensopando diariamente, expelindo sangue negro e nocivo das artérias.
Era nojo de vomitar gosma, era nojo de tocar todo o resto. Lixo-humano, porcaria canhenga. Matadouro aberto ao publico.
Chorei. Mas dos meus olhos saíram água pura.
Cortei, fatiei em pedaços rompendo os cabos e aos poucos a fábrica cessou.
No chão, o esgoto afetava a vizinhança.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Chuva boba e simples

quinta-feira, 13 de agosto de 2009 8
Ah! Hoje é mais um dia de chuva.
Vi por entre a janela um maravilhoso céu nublado. Umas nuvens cinza, graciosíssimas, foram pinceladas à mão, formando grandes manchas pomposas e soltas. Uma tarde tão notória guardaria um segredo tão anormal?
Não.
Porque é chuva. É apenas uma chuva de tarde nublada.
Promete ser uma chuva que talvez molhe meus cabelos, escorra pelo meu rosto, ensope minhas roupas, leves, brancas. Verei tudo tornar-se embaçado e puro. Os cabelos aumentarão de comprimento e evacuarão suavemente com os pingos d’agua. Como os pingos d’agua. Estes deslizarão sob todo meu corpo, sem pressa, estarão sorrateiros, e brincarão em minhas curvas. Sei que fecharei os olhos brandamente, tentando sentir os pingos no meu rosto contrastarem com a batida de meu coração. Formarão uma melodia. Qualquer minuto olharei para cima, sorrindo. Agradecendo, talvez. Provavelmente não pensarei em nada.
Não é deliciosa essa certeza?
Será o momento do não pensar em nada pela simplicidade de apreciar uma chuva gostosa e evasiva. Não minto quando digo que os suspiros fogem-me pela boca, e velejo pelo mar manso de meu ser nesse momento. Sinto um delicioso arrepio de leve que passa pelo meu pescoço e vai até a orelha, gelado. Toco com as mãos meu rosto, cabelos, boca. Ainda estaria aqui?
Me pego sorrindo para as paredes. E de certa forma, elas retribuem com seu palpitar petrificado, deveras complexo para alguns comuns. Mas para mim não, eu as entendo. Só entende as paredes aquele que costuma passar muito tempo de frente para elas, ou ao seu lado. Pessoas assim como eu. Que descobriram o confortável acolhimento dos tijolos, cimento e reboco.
Comecei a escrever com o coração acelerado esse texto bobo, simples. Agora em meu peito tem algo calmo, comandando meu resto.
Minha mente perdeu a complexidade natural que todos atribuíram por serem tão analíticos. Minha mente está branca, boba, simples. Estão incomodados, mas eu não. Por que estaria?

Shh...
E lá vem os primeiros pingos.

sábado, 8 de agosto de 2009

Inspiração Encomendada

sábado, 8 de agosto de 2009 6
As mãos estavam apertadas, coladas uma à outra, os dedinhos vermelhos travavam uma batalha quente e suada sob as coxas juntas, levemente inquietas. Sentada numa cadeira desconfortável de plástico, dentro de uma sala abafada, pouco iluminada por uma luz azul.
Os olhos fechados com força, como se quanto mais rigidez atribuísse às suas sobrancelhas para dobrar-lhe os couros significasse uma profunda concentração digna de atenção maior. Atenção que buscava em momentos propícios, não de muitos, todos os dias ou na mesma salinha escura e azulada. Era vontade de focar com a mente seu objetivo palpitante, de fazê-lo saltar do térreo onde pisava.
Superficialmente era sentar, fechar os olhos e juntar as mãos. Internamente, sua mente transpunha tudo usando poucas palavras, tornando mais fácil de “explicar” o que queria. Tinha tempo limitado, era esperar ser chamada e sair da cadeira para que outros pudessem, ali, fazer o mesmo. Então ela o fez apressado, com as mesmas características de antes, concentração ao máximo, focando no subjetivo, imperativo, no fio azul, fluídico, que saia de sua cabeça para os confins do universo.
“Me dê inspiração. Por favor. Se eu tenho inspiração, sou capaz de tudo que pedia antes, e ainda melhor! Inspiração, meu Deus. Inspiração...” repetia a palavra em mente, enquanto os dedos ficavam ainda mais pressionados, os olhos ainda mais fechados, e a boca levemente levantada nos cantos. A pele toda se contorcia no rosto. “Inspiração.”
Foi quando pediram-me que saísse da cadeira, e minha oração foi interrompida. O fio que saia de minha cabeça se apagou rapidamente como uma conexão de internet. Bruscamente cortada.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Alguns Beijos de Sol

segunda-feira, 3 de agosto de 2009 1
E hoje ao meu sonhar de toda madrugada
recordei sonhando o que temia
pois foste num beijo marcado meu lábio
Esfr’ando os raios do dia

O hálito ainda virgem, seco na boca
Intocável memória ainda acesa,
Vigília entre o insano e o certo
certamente prazeroso.

Dos beijos, mais mil
entregues —
dos sonhos, de todos —
beijados
assim como fizera neste manto lácteo,
em todas as eras e vias,
E se há juras d’um Sol sangrento
Acomoda-me ao teu peito
E me jura outro Sol,
Beijando-me os lábios como fizera.
 
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