terça-feira, 27 de abril de 2010

Doce Marilusa

terça-feira, 27 de abril de 2010 1
Marilusa acostumou-se com a lentidão dos dias, e jogava-se taciturna como jogam flores mortas ao mar. Completamente entregue, flutuava inerte perante as ondas das sombras entorpecentes. Vestindo uma roupa branca de algodão semitransparente, protegia-se vulneravelmente das pequenas partículas de poeira flutuantes no feixe de luz da sala de estar, esperava esperançosa a presença do marido.
Acomodada em sua própria moradia, que era mais dele do que dela, despojou dos cabelos a trança bagunçada, libertando as mechas carameladas, antes impedidas de exalar um perfume aromal. Simplesmente anormal, seu jeito de portar-se perante ela mesma.
Os pacíficos olhos contornaram a sala, quase cinza cor de céu nublado, ainda receptavam clementes imagens puras, por mais putrefatas que estivessem. Ainda captavam pouca luminosidade em dias de chuva, por mais imersos em mediocridade. Pois os olhos daquela mulher eram conservados por outro tipo de tempo, paralelo ao tempo dos homens, mesmo que em plano material compartilhado. Esta conotação seria a única e absoluta razão para os olhos cinza, pois pareciam possuir a praticidade de velas, mesmo que ainda corressem o risco da tiflose e da promissora voracidade de vermes como os do restante da população.
Paciente, massa de molde em forma de mulher, brincava ela mesma por ser tão branca, obrigava ela mesma a pegar um pouco de sol, mas desde a ultima vez que havia tentado, chorou de desgosto machucada pela insolação. Como sempre acabava exposta demais, expondo-se às coisas e as coisas se expondo à ela, preocupou-se por dias com apenas isto vagando em sua consciência, reteve-se calada e colheu uma solução após a vertigem. Prometeu que os ignoraria daquele dia em diante, do mesmo modo que fizeram os raios de sol que esclerosaram sua pele.
Envergonhados feito o marido por maltratarem criatura tão modesta, os belos raios vívidos recolheram-se de sua casa sem palpitar ojeriza. Excederam aquele que jurou amá-la, mas seria tolice tentar comparar o vulgo rapaz com o sol, por isso não me atrevo.
Tudo naquela sala chorava pelo simples fato de vê-la ali. Os ressequidos girassóis vangoguianos pediam-lhe perdão, pousados em seu canto esquecido, e ela os ignorava.
Fazia-se então naquele cômodo uma culpa de morte. Ela os fazia se sentirem ameaçados e melancólicos por não poderem fugir de sua presença.
Nada com vida durava ao seu redor. Era de certa forma redenção à simplicidade maior que as de frutos, joaninhas e girassóis, mas tanta redenção que deixaram-na sozinha, avoada do mundo, tão bela e frágil criatura.


28-09-09

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Uma breve conversa

Lendo os comentários do texto passado, me deparei com o Senhor Anônimo que com toda sua espontaneidade, acredito, postou o seguinte:
Anônimo disse...
As vezes eu acho que só a Brenda entende o que ela escreve '-'

HAHA, não vou mentir dizendo que isso não me divertiu. Me perguntei no mesmo instante se isso seria verdade, pois até agora, todos que leem meus textos tem interpretações diferentes daquelas que foram predestinadas por mim quando os escrevi. Mas eu não me culpo, de jeito nenhum. Acho uma beleza o corpo mole dos meus textos. Continuem escrevendo para mim, amo cada comentário.
Obrigada.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Conceito de Pedro: O rei do seu mundo.

quinta-feira, 18 de março de 2010 7

Desnorteado e um pouco cansado, Pedro tentou novamente ler o conceito de Filosofia. Leu devagarzinho, sonolento, quase digerindo o livro. Dessa vez talvez fosse, dessa vez talvez conseguisse entender pra que servia. Afinal, seu conceito das coisas seria que todas elas precisavam estar completamente explicadas em metódicos conceitos.
Fosse quem fosse, fosse Alice ou fosse Clarice tentarem explicar o conceito de maçã tomando laranja debaixo dos pés sem unhas do abacateiro. Ele punha fim em tudo, punha ponto e final – Ponto final!
Terminou de ler aquilo com fogo nos olhos, nos cabelos, com o sangue preso nos dedos. Apertou a capa do livro tentando machucá-lo por ser um objeto tão indeciso. Aquilo não o dizia nada, que absurdo. Como havia sido publicado? Como podia existir?
Mentira! Uma verdadeira lorota que ele não conseguia entender. Tentou rasgar aquela página, justamente a página do conceito, pois achou-a inválida. Contou para si mentiras leves que enobreciam a alma. Ele era o rei do seu mundo.
Cortou, e cortou com a régua.
Filosofia passou a ter um novo conceito para Pedro:
O de conceito nenhum e ponto. – Ponto final!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Metá(s)fora

segunda-feira, 15 de março de 2010 2
Eu amo minha vida, e não me arrependo de nada que faço ( se cheguei ao ponto de fazer então é porque sou eu).
E eu comecei falando isso, para não ter motivos futuros a um breve arrependimento. Também amo meus amigos, e não troco os que tenho. Também amo quem me ama, e não odeio quem não o faz. Mas me parece, que essa brincadeira, perdoe a palavra enquanto se trata de vida, não quer levar a lugar algum alguém que realmente se esforçaria se pudesse provar de outras virtudes, outras concepções, mesmo que decoradas de algum livro de Kant.
Seria porque o esforço da maré só atua com o vento?
Ontem, enquanto andava com uns amigos pelo shopping São Luís, vi alguéns e algumas que eram imperceptiveis para meus amigos, mas não para mim.
Quando poderei conhecê-los?
Eu só não gosto de ficar parada. Mas o vento não ajuda... Ou seria meu barco?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Enquanto correr sangue preto nessas veias de poeta

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009 6
Falar de morte virou moda, falar de vida ressequida.
Falar de amor é besteira, amor que mata é mais prazeroso.
Tentar o homem é interessante, vê-lo sangrar é agradável. Viver é inútil, porque o homem sangra. O homem sangra nas rosas brancas para deixá-las avermelhadas, o homem sangra nas suas palavras, lamentavelmente.
O sangue é mais bonito que a água destilada, o sangue é quase preto dentro do padrão de um belo texto. Muito, derrama, e jorra, e invade quem quer e quem não quer.
Tornamo-nos vampiros sem ao menos desejarmos, achando que isso é algo plausível. Quando vem o ponto, a virgula, e mais dor, e mais tormento, ninguém precisava ler tanta baboseira pessimista, ainda mais vinda do fogo infernal da alma de uma hipócrita.
A única verdade é a verdade do caos. A única salvação é a mentira que se cria pra forjar algum escândalo.
Escândalos são bons em textos de morte, porque são eles que chocam, que trazem a singular escapatória da insanidade, mas são truques, são truques harmonicamente esdrúxulos, chulos. E os amantes da dor aplaudem de pança cheia e calça desabotoada, de pênis pra fora e saliva de sobra na boca.
Nesses momentos me vem a vontade de perguntar:
Porra, e a merda do meu texto sobre a vida bucólica de uma mulher honesta?

Enquanto dói, fere e machuca, mais bonito é, mais interessante. Viver é inútil, porque o homem sangra.

domingo, 6 de dezembro de 2009

O Caos e a Ordem

domingo, 6 de dezembro de 2009 2

Esse texto sem propósito aparente não vem discorrer sobre as injustiças do mundo ou do homem em seu habitat verde de musgo e produtos químicos, e muito menos sobre a bondade de Deus soberana e segura sobre a cabeça atordoada de cada um de nós. Na verdade, esse é um texto bem egoísta, bem mesquinho, e só lê quem quer saber sobre a vida alheia ou tem simpatia com o modo em que escrevo (que eu sinceramente acho uma miséria).
Eu não procuro uma forma de entregar o que sinto tão fácil à vocês, seres sem cara nem cheiro! Por isso eu complico tanto que quem não entende fica sem entender porque nem tenta, mas é que eu tento tão pouco também... Por isso somos irmãos, todos nós. Unidos até pelas diferenças.
Vontade e disposição não me faltam para arriscar e jogar minha moedinha favorita de 1,00 real dentro do poço escuro e viscoso quando surge uma oportunidade pela estrada, tenho até curiosidade em saber se aquilo tem fim, se eu vou chegar a escutar minha moedinha reverberando pelas paredes de cascalho.
O simples tocar ao pé do ouvido não basta quando me oferecem palavras tão bem distribuídas em papel pardo, do tempo do meu avô, e palavras em papel velho não bastam quando me oferecem o que eu provavelmente sentiria se já pudesse entender.
Mas é que os dois estão tão distantes e os dois opostos me fazem sentir tão viva, tão louca, tão surda. O velho papel me proporciona o renascer em todo o caos moderno de poeta boêmio em plena crise da adolescência, me lapidando e me amando loucamente, de forma possessiva e apaixonada, sem crer que o dia depois de amanhã realmente fará alguma diferença, ou crendo que o por-do-sol de hoje está tão lindo que se poderia morrer bem em frente, é claro, só depois de gritar “Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo.” E proclamando eufórico às ondas calmas do mar o poema “Traduzir-se”, de Ferreira Gullar — Como os lunáticos do reviver.
O bom moço vestido de gaivota branca que plana suave, em cima do mar a furar o horizonte, tão compenetrado, me mata de amor com os olhos felizes de saborear a plenitude — tão cedo.
Ah! Eu meio que me arrumei num canto ranzinza do medo de saborear o gosto do silêncio merecido e conhecedor, e com isso provoquei minha fúria de deus de mim mesma, fúria essa como a de todos os deuses, sem fundamento e sem propósito, perdão, o propósito de todo deus com ira... Um absurdo!
O que acontece é que nem eu entendo como posso estar na linha que observa e atua ao mesmo tempo, como posso interferir nas minhas próprias coisas dum jeito tão racional, e que parece, às vezes, tão natural.

domingo, 1 de novembro de 2009

Igualdade simplória

domingo, 1 de novembro de 2009 6
Ela beijou as mãos dele tão ternamente que sua delicadeza pairou entre a linha de maternal e amante. Os lábios vistosos e gélidos, porém cheios de vida, pressionaram-se contra a testa da mão dele, fazendo com que os dedos pasmassem um pouco no ar.
— Anabele! Ah Anabele... — suspirou prazerosamente, quase ofegante por perder o senso.
Podia vê-la curvada a beijar suas mãos, tão simplória e desnuda de seu ego. Poucos momentos eram tão puros quanto aquele.
Ele mesmo fez questão de levantar aquele rosto frágil para apoiar a cabeça em seus seios. Sabia que ela não gostava de quando ele a tratava assim, mas em momentos como aquele, arriscar não significaria muita coisa senão arriscar.
Ela o acolheu.
Nem palavras se fizeram necessárias, nem vento soprou galhofeiro, ou insetos pousaram nas flores. Fez-se uma atmosfera congelada, mas longe de ser patética.
— Anabele! Ah Anabele... — Nesses momentos tê-la em seus braços ou estar em seus braços estava alheio a qualquer estereótipo masculino. Tê-la era apenas tê-lo.E ambos se entregavam ao exclusivo estado de estar.



"Je t'aime encore tu sais je t'aime"

domingo, 18 de outubro de 2009

Nós duas

domingo, 18 de outubro de 2009 5

Nunca nos vimos, nunca nos falamos, e a paciência vai fluindo no rio de águas turvas que a gente cria de propósito só porque somos assim. Um pouco diferentes e um pouco normais. Normais demais, demais todos os dias. E a normalidade do mundo pode algum dia conviver com a nossa? Mas é a mesma coisa, as mesmas preocupações. Duas criaturas que desejariam fugir para um universo bem distante, procurando aquela coisa em alguma estrela maior e brilhante. A gente queria mesmo é estar procurando Atlântida, como vivemos nas criações de Colin Thompson, navegando por aê nuns navios bem grandes e porcos da época medieval, queremos ser os marinheiros e as próprias sereias com os cantos a iludir quem passa. Meninas, meninos, bruxas, vampiros, putas, cowboys, vai tudo variando quando a gente tenta fugir de alguma coisa que sabemos bem como é. “Não me deixa ficar assim, meu Deus!”. Queremos uma boa dose de RUM que desça rasgando a garganta, queremos guelras só para ver como é explorar o inimaginável fundo do mar, onde homem nenhum foi! Mas não somos homens, somos duas mocinhas, e é por isso que a gente pode.
 
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